Zé das Fezes pedalava sua bicicleta velha e enferrujada pela rua rachada do subúrbio, suando pra caralho debaixo do sol de meio-dia. O vento quente batia no rosto dele, trazendo o cheiro eterno de esgoto e fritura de pastel.
Enquanto pedalava, ele sonhava.
“Puta merda… se eu pagasse menos imposto, minha vida seria outra. Comprava uma carne boa, uma cerveja gelada todo dia, talvez até uma televisão que não fosse de 2009…”
Ele sorriu sozinho, pedalando mais leve só de imaginar.
Foi nesse exato momento que o destino resolveu foder com ele.
A roda da bicicleta passou por uma poça de mijo quente e amarelado. De dentro dela, como se o próprio inferno burocrático tivesse aberto as portas, surgiu Taxad, o Taxa Humana.
Alto, sério, camisa social branca impecável apesar do calor, gravata vermelha e um olhar de quem já taxou até o ar que você respira. Na mão direita, ele segurava a Jóia da Taxação Infinita, brilhando num tom vermelho infernal.
Zé freou a bicicleta, olhos arregalados.
— Mas que porr…
Taxad nem deixou ele terminar.
— Pensamento declarado: “Quero pagar menos imposto”.
Taxado.
Uma onda invisível acertou Zé no peito. Ele sentiu como se alguém tivesse arrancado 30% do seu futuro.
— Vontade de não pagar imposto…
Taxada.
Zé começou a tremer. Seus pensamentos começaram a ser sugados. Toda vez que tentava pensar “eu não quero pagar”, uma voz calma e burocrática sussurrava dentro da cabeça dele: “Imposto retido na fonte. Multa de 75%. Juros de mora.”
Taxad deu um passo à frente, a poça de mijo borbulhando atrás dele.
— Células do corpo… Taxadas.
— Sonhos de uma vida melhor… Taxados.
— Vontade de acordar amanhã… Taxada.
Zé caiu da bicicleta, se contorcendo no chão. Ele sentia cada molécula do seu ser sendo fiscalizada. Até o ar que entrava no pulmão dele já vinha com nota fiscal.
— Por favor… — Zé gemia, babando no asfalto — Eu só tava pedalando, cara…
Taxad olhou para ele com pena burocrática e disse com voz calma:
— Pensamento de pedir misericórdia… Taxado.
Zé das Fezes parou de se mexer. Seus olhos ficaram vazios. Ele se levantou devagar, pegou a bicicleta e começou a pedalar de novo, agora com postura de quem já aceitou o destino.
Enquanto pedalava, uma única lágrima escorreu pelo seu rosto… e até aquela lágrima foi taxada em 27,5%.
Ao fundo, o Taxa Humana desapareceu de volta na poça de mijo, ajustando a gravata.
Mais um cidadão devidamente tributado.